24 de julho de 2026

Ferro e Gestação: Muito Além da Anemia – Um Olhar Hematológico

Como hematologista, frequentemente recebo gestantes no consultório encaminhadas por anemia. No entanto, a conversa sobre ferro na gravidez precisa ir muito além do nível de hemoglobina. Com base em revisões recentes da literatura médica, hoje vamos aprofundar a discussão sobre a deficiência de ferro (com e sem anemia), o diagnóstico preciso e as opções terapêuticas modernas.

A causa patológica mais comum de anemia é a Deficiência de Ferro (ferropenia). Estima-se que 25% de todas as gestantes nos EUA tenham deficiência de ferro, chegando a quase 40% no terceiro trimestre. Isso ocorre porque a demanda de ferro na gestação é altíssima (cerca de 1000 mg no total) para suportar o feto, a placenta e a expansão eritrocitária.

Diagnóstico: O Desafio Clínico e Laboratorial

  • Quadro Clínico: Muitas vezes os sintomas são inespecíficos e confundidos com o cansaço habitual da gravidez. No entanto, devemos estar atentos a sinais como:
    • Fadiga intensa, irritabilidade e falta de concentração.
    • Síndrome das Pernas Inquietas.
    • Pagofagia (vontade de comer gelo): Este sintoma tem 95% de especificidade para deficiência de ferro.
  • Diagnóstico Laboratorial: Aqui reside uma grande discussão. A OMS define anemia na gestação como Hemoglobina < 11 g/dL. No entanto, focar apenas na hemoglobina é insuficiente. O marcador chave é a Ferritina. Existe uma discrepância nas diretrizes: a OMS sugere um corte de ferritina < 15 ng/mL, enquanto o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) e estudos recentes recomendam considerar deficiência de ferro quando a ferritina é menor que 30 ng/mL.
  • Por que < 30 ng/mL? Esse nível possui maior sensibilidade (92%) sem comprometer significativamente a especificidade, permitindo identificar pacientes que já têm estoques depletados antes mesmo da anemia se instalar.

Complicações: Por que tratar?

A falta de ferro não gera apenas cansaço materno; ela tem implicações sistêmicas graves. Riscos Maternos: A anemia ferropriva aumenta as chances de parto prematuro, descolamento de placenta, pré-eclâmpsia e necessidade de transfusão sanguínea no parto. Além disso, há uma forte associação entre deficiência de ferro e depressão pós-parto, bem como a diminuição da qualidade de vida e cognição materna.

Riscos Fetais e Neonatais (O Conceito de “Cérebro em Risco”): Este é o ponto que mais me preocupa como especialista. O feto depende inteiramente dos estoques maternos. Estudos mostram que o ferro é priorizado para a produção de glóbulos vermelhos em detrimento do cérebro. Ou seja, o cérebro fetal pode estar deficiente de ferro antes mesmo de a mãe

apresentar anemia franca no hemograma. As consequências incluem:

  • Baixo peso ao nascer e restrição de crescimento.
  • Comprometimento do neurodesenvolvimento: Déficits de memória, processamento e mielinização que podem persistir até a vida adulta.

Tratamento: Oral versus Intravenoso

O objetivo é repor os estoques e proteger o desenvolvimento fetal.

  • Ferro Oral: Ainda é a primeira linha recomendada pelas sociedades internacionais.
    • O problema: A intolerância gastrointestinal (náusea, constipação) afeta até 70% das pacientes, levando ao abandono do tratamento.
    • Dica de especialista: A dosagem em dias alternados (dia sim, dia não) parece ser tão eficaz quanto a diária e reduz a hepcidina, melhorando a absorção e diminuindo os efeitos colaterais.
  • Ferro Intravenoso (IV): O ferro IV é seguro e eficaz, especialmente no segundo e terceiro trimestres. Ele é indicado quando há intolerância ao ferro oral, má adesão ou necessidade de reposição rápida (anemia grave ou final da gestação).
    • Estudos mostram que o ferro IV eleva a hemoglobina e a ferritina mais rapidamente que o oral, com menos efeitos gastrointestinais.

Conclusão

Não devemos normalizar a anemia na gestação. O rastreio com ferritina (almejando > 30 ng/mL) e o tratamento precoce são essenciais não apenas para evitar transfusões no parto complicações maternas e para garantir o pleno potencial de neurodesenvolvimento da criança. Se o ferro oral não for tolerado, a reposição venosa é uma ferramenta segura e valiosa no nosso arsenal terapêutico.

 

 

 

Referências Bibliográficas

  1. Lewkowitz AK, Tuuli MG. Identifying and treating iron deficiency anemia in pregnancy. Hematologists and the Care of Pregnant Women.
  2. Benson AE, Shatzel JJ, Ryan KS, et al. The incidence, complications, and treatment of iron deficiency in pregnancy. Eur J Haematol. 2022.
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  6. Tolkien Z, et al. Ferrous sulfate supplementation causes significant gastrointestinal side-effects in adults: systematic review and meta-analysis. PLoS ONE. 2015.
  7. Stoffel NU, et al. Iron absorption from oral iron supplements given on consecutive versus alternate days… Lancet Haematol. 2017

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