Como hematologista, frequentemente recebo gestantes no consultório encaminhadas por anemia. No entanto, a conversa sobre ferro na gravidez precisa ir muito além do nível de hemoglobina. Com base em revisões recentes da literatura médica, hoje vamos aprofundar a discussão sobre a deficiência de ferro (com e sem anemia), o diagnóstico preciso e as opções terapêuticas modernas.
A causa patológica mais comum de anemia é a Deficiência de Ferro (ferropenia). Estima-se que 25% de todas as gestantes nos EUA tenham deficiência de ferro, chegando a quase 40% no terceiro trimestre. Isso ocorre porque a demanda de ferro na gestação é altíssima (cerca de 1000 mg no total) para suportar o feto, a placenta e a expansão eritrocitária.
Diagnóstico: O Desafio Clínico e Laboratorial
- Quadro Clínico: Muitas vezes os sintomas são inespecíficos e confundidos com o cansaço habitual da gravidez. No entanto, devemos estar atentos a sinais como:
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- Fadiga intensa, irritabilidade e falta de concentração.
- Síndrome das Pernas Inquietas.
- Pagofagia (vontade de comer gelo): Este sintoma tem 95% de especificidade para deficiência de ferro.
- Diagnóstico Laboratorial: Aqui reside uma grande discussão. A OMS define anemia na gestação como Hemoglobina < 11 g/dL. No entanto, focar apenas na hemoglobina é insuficiente. O marcador chave é a Ferritina. Existe uma discrepância nas diretrizes: a OMS sugere um corte de ferritina < 15 ng/mL, enquanto o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) e estudos recentes recomendam considerar deficiência de ferro quando a ferritina é menor que 30 ng/mL.
- Por que < 30 ng/mL? Esse nível possui maior sensibilidade (92%) sem comprometer significativamente a especificidade, permitindo identificar pacientes que já têm estoques depletados antes mesmo da anemia se instalar.
Complicações: Por que tratar?
A falta de ferro não gera apenas cansaço materno; ela tem implicações sistêmicas graves. Riscos Maternos: A anemia ferropriva aumenta as chances de parto prematuro, descolamento de placenta, pré-eclâmpsia e necessidade de transfusão sanguínea no parto. Além disso, há uma forte associação entre deficiência de ferro e depressão pós-parto, bem como a diminuição da qualidade de vida e cognição materna.
Riscos Fetais e Neonatais (O Conceito de “Cérebro em Risco”): Este é o ponto que mais me preocupa como especialista. O feto depende inteiramente dos estoques maternos. Estudos mostram que o ferro é priorizado para a produção de glóbulos vermelhos em detrimento do cérebro. Ou seja, o cérebro fetal pode estar deficiente de ferro antes mesmo de a mãe
apresentar anemia franca no hemograma. As consequências incluem:
- Baixo peso ao nascer e restrição de crescimento.
- Comprometimento do neurodesenvolvimento: Déficits de memória, processamento e mielinização que podem persistir até a vida adulta.
Tratamento: Oral versus Intravenoso
O objetivo é repor os estoques e proteger o desenvolvimento fetal.
- Ferro Oral: Ainda é a primeira linha recomendada pelas sociedades internacionais.
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- O problema: A intolerância gastrointestinal (náusea, constipação) afeta até 70% das pacientes, levando ao abandono do tratamento.
- Dica de especialista: A dosagem em dias alternados (dia sim, dia não) parece ser tão eficaz quanto a diária e reduz a hepcidina, melhorando a absorção e diminuindo os efeitos colaterais.
- Ferro Intravenoso (IV): O ferro IV é seguro e eficaz, especialmente no segundo e terceiro trimestres. Ele é indicado quando há intolerância ao ferro oral, má adesão ou necessidade de reposição rápida (anemia grave ou final da gestação).
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- Estudos mostram que o ferro IV eleva a hemoglobina e a ferritina mais rapidamente que o oral, com menos efeitos gastrointestinais.
Conclusão
Não devemos normalizar a anemia na gestação. O rastreio com ferritina (almejando > 30 ng/mL) e o tratamento precoce são essenciais não apenas para evitar transfusões no parto complicações maternas e para garantir o pleno potencial de neurodesenvolvimento da criança. Se o ferro oral não for tolerado, a reposição venosa é uma ferramenta segura e valiosa no nosso arsenal terapêutico.
Referências Bibliográficas
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- Benson AE, Shatzel JJ, Ryan KS, et al. The incidence, complications, and treatment of iron deficiency in pregnancy. Eur J Haematol. 2022.
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