Olá! Como médica hematologista, recebo frequentemente pacientes no consultório com uma queixa muito comum: um cansaço que não passa, falta de energia e até queda de cabelo. Muitas vezes, o culpado é um velho conhecido nosso: o ferro. Ou melhor, a falta dele.
Hoje, quero explicar para vocês, de forma simples, o que acontece com o corpo quando os níveis de ferro caem, como diagnosticamos isso e qual a melhor forma de tratar. Vamos lá?
1. O que é Deficiência de Ferro e o que é Anemia Ferropriva? São a mesma coisa?
Não exatamente, embora estejam conectadas. O ferro é um nutriente essencial para a vida; ele ajuda a fabricar a hemoglobina (que transporta oxigênio no sangue), mantém o sistema imunológico forte e é vital para a saúde dos músculos, pele, cabelo e unhas.
- Deficiência de Ferro: É quando os seus “estoques” de ferro no corpo (chamados de reservas) estão baixos ou vazios. Você pode ter deficiência de ferro sem ter anemia. Isso acontece quando o corpo já gastou a reserva, mas ainda consegue manter a produção de sangue num nível aceitável.
- Anemia Ferropriva: É o estágio mais avançado. Ocorre quando a falta de ferro é tão grande que o corpo não consegue mais produzir glóbulos vermelhos em quantidade ou qualidade suficiente. As células do sangue ficam pequenas e pálidas.
Pense assim: a deficiência de ferro é como estar com o tanque de combustível do carro na reserva; a anemia é quando o carro para porque o combustível acabou
2. Quem corre mais risco de ter esse problema?
A deficiência de ferro é muito comum e afeta bilhões de pessoas no mundo. Alguns grupos precisam de atenção redobrada:
- Mulheres em idade fértil: A menstruação é uma das principais causas de perda de ferro, especialmente se o fluxo for intenso.
- Gestantes e lactantes: A gravidez exige muito ferro para o bebê e para a placenta. Se não houver suplementação adequada, a mãe pode ficar sem reservas.
- Crianças e Adolescentes: O crescimento rápido nessas fases aumenta muito a necessidade de ferro pelo corpo.
- Vegetarianos e Veganos: O ferro encontrado em vegetais é absorvido com menos facilidade pelo corpo do que o ferro da carne.
- Pessoas com problemas digestivos: Doenças como Doença Celíaca, gastrite, úlceras ou infecção pela bactéria H. pylori podem impedir a absorção do ferro ou causar pequenos sangramentos.
- Pessoas operadas: Quem fez cirurgia bariátrica (redução de estômago) tem maior dificuldade em absorver o nutriente.
3. Sinais e Sintomas: O corpo avisa
Muitas vezes, a pessoa se acostuma com o mal-estar, mas o corpo dá sinais claros. Além do cansaço, fique atento a:
- Fadiga inexplicável e falta de energia (é o sintoma mais comum).
- Queda de cabelo e unhas fracas ou quebradiças (às vezes com formato de colher).
- Pele pálida ou amarelada.
- Falta de ar, coração acelerado ou dor no peito ao fazer esforços.
- Tontura e dor de cabeça.
- Síndrome das Pernas Inquietas: Uma vontade incontrolável de mexer as pernas, principalmente à noite.
- Pica (ou Picamalácia): Um desejo estranho de comer coisas que não são alimentos, como gelo, terra ou argila.
4. Como fazemos o diagnóstico?
O diagnóstico é feito através de exames de sangue. Não basta olhar apenas se você tem “anemia” (hemoglobina baixa); precisamos olhar os estoques.
Os principais pontos que avaliamos são:
- Hemoglobina: Se estiver baixa, indica anemia.
- Ferritina: É o exame mais importante para ver o estoque de ferro.
◦ Atenção aqui: Muitos laboratórios dizem que a ferritina acima de 10 ou 15 é “normal”. Porém, estudos recentes e recomendações internacionais sugerem que, para a maioria das pessoas, uma ferritina abaixo de 30 ng/mL já indica deficiência de ferro.
◦ Se você tem alguma inflamação, gripe, doença renal ou cardíaca, a ferritina pode parecer falsamente “normal” ou alta. Nesses casos, o médico precisa avaliar outros exames, como a saturação da transferrina.
Se a deficiência for confirmada, é fundamental investigar a causa. Em adultos (especialmente homens e mulheres na menopausa), pode ser necessário investigar o estômago e o intestino para descartar perdas de sangue que não vemos a olho nu.
5. Como é o tratamento?
O tratamento tem dois objetivos: normalizar a anemia (se houver) e encher o “tanque” (repor os estoques de ferritina).
- Dieta: É importante comer carnes (bovina, frango, peixe), vegetais verde-escuros e leguminosas (feijão, lentilha). Uma dica de ouro: vitamina C (laranja, limão, acerola) ajuda a absorver o ferro, enquanto café, chá, leite e antiácidos atrapalham. Evite-os durante as refeições principais.
- Ferro Oral (Comprimidos ou Líquido): É a primeira opção para a maioria.
◦ Novidade: Antigamente tomava-se ferro todos os dias. Hoje, sabemos que tomar em dias alternados (dia sim, dia não) ou em dose única diária pode aumentar a absorção e diminuir muito os efeitos colaterais como dor de estômago, enjoo e intestino preso.
◦ O tratamento não acaba quando a anemia melhora! Devemos continuar por pelo menos 3 meses depois para garantir que a reserva está cheia.
- Ferro Intravenoso (Na veia): Reservado para quem não tolera os comprimidos, tem problemas de absorção (como bariátricos ou doenças inflamatórias intestinais) ou precisa de uma recuperação rápida (como no final da gravidez ou antes de cirurgias). As formulações modernas são seguras e eficazes.
Conclusão
Se você se identificou com esses sintomas, não se automedique e nem ignore os sinais do seu corpo. Procure um médico para fazer os exames corretos e descobrir a causa do problema. O ferro é vital para nossa qualidade de vida!
Referências bibliográficas:
- AMERICAN SOCIETY OF HEMATOLOGY. ASH Draft Recommendations for Diagnosis of Iron Deficiency. [S.l.]: American Society of Hematology, 2025. (Documento preliminar para consulta pública).
- CAMASCHELLA, Clara. Iron deficiency. Blood, [S.l.], v. 133, n. 1, p. 30-39, 2019. Disponível em: DOI 10.1182/blood-2018-05-815944.
- IOLASCON, Achille et al. Recommendations for diagnosis, treatment, and prevention of iron deficiency and iron deficiency anemia. HemaSphere, [S.l.], 2024. Disponível em: DOI 10.1002/hem3.108.
